O nome vem de um poema épico de Homero que relata uma viagem cheia de aventuras extraordinárias, e é assim que a Odisseias se posiciona, uma marca que te oferece experiências inesquecíveis. No mercado desde 2005 a marca foi comprada pela Smartbox há dois anos e têm atualmente mais de 1000 parceiros e mais de 5000 experiências e produtos.

Na Ecommerce News estivemos à conversa com Francisco Costa, Country Manager na Odisseias. Explicou-nos em detalhe a sua empresa e o seu posicionamento no mercado, os planos para o corrente mês de novembro, falou-nos do estado do ecommerce em Portugal e da concorrência.

Ecommerce News (EcN):  Em que ponto se encontra a saúde do comércio eletrónico em Portugal?

Francisco Costa (FC): Bem, para nós encontra-se bem, temos tido sempre taxas de crescimento elevadas, dentro dos dois dígitos, mas nós somos bastante diferentes porque vendemos serviços e não produtos e provavelmente o que se pensa quando falamos de ecommerce são produtos. Na questão dos produtos físicos, nós temos características enquanto país que, por vezes, dificultam a aceleração do próprio ecommerce em comparação com países como o Reino Unido ou os Estados Unidos porque uma questão de acessibilidade ao retalho. Aqui é muito fácil, o retalho está muito próximo das pessoas e por vezes dificulta a penetração do ecommerce, repito na questão dos produtos. Para nós tem-nos corrido muito bem porque a questão dos serviços é diferente. Parte do que vendemos não é possível comprar no retalho outra parte é e aí temos parcerias no retalho e funciona bem em ambos os canais.

Ecommerce News (EcN): E quais às barreiras que sentem na Odisseias?

Francisco Costa (FC): Nós temos duas questões, a maior parte dos produtos que temos não envolve entrega de nada e esta é uma parte que normalmente o ecommerce tem problemas, na entrega, velocidade de entrega. Nós temos essa parte porque a Odisseias para além de vender para as pessoas comprarem para elas, também vende para que as pessoas comprem para oferecer e nestes casos muitas vezes pedem que se envie a oferta numa caixa, ou seja, nós materializamos o serviço numa caixa e aqui temos barreiras iguais aos produtos físicos como o custo de entrega. Isto é sempre uma barreira que nós tentamos ultrapassar, por exemplo em muitos produtos oferecemos a entrega, ou seja, abdicamos margem para poder conseguir dar esse serviço ao cliente.

Também gostávamos muito de poder fazer entregas no próprio dia, mas no nosso mercado é difícil, ou pelo menos nós ainda não encontrámos a solução, mas sem dúvida que gostaríamos de o fazer isso. Na parte dos serviços onde não temos que entregar produto físico os desafios são outros, não são tanto do ecommerce, são próprios da nossa indústria. Temos que ter produtos, preço e oferecer coisas interessantes às pessoas e esse é o nosso dia a dia.

Ecommerce News (EcN):  Qual foi o seu volume de negócios em 2018 e quais são as suas perspetivas para 2019?

Francisco Costa (FC): A faturação em 2018 foi próxima dos 18 milhões de euros em online e offline e basicamente estamos mais ou menos 50% online e 50% nos nossos distribuidores. As perspetivas para este ano são de crescimento em ambos os canais, offline e online, e contamos chegar aos 20 milhões de faturação.

EcN:  Qual é o vosso posicionamento no mercado?

FC: Nós somos uma empresa de experiências e pretendemos oferecer aos nossos clientes a oportunidade de realizarem uma experiência fantástica e de oferecerem uma experiência fantástica. O nosso propósito é inspirar as pessoas a viverem mais a vida, terem mais tempo de qualidade umas com as outras e não se atinge isso ao comprar produtos físicos, mas sim experiências. As experiências são excelentes e, grande parte das nossas experiências, são para duas pessoas e portanto sempre que conseguimos vender uma experiência sabemos que estamos perto das pessoas desfrutarem de um momento em conjunto e passarem tempo juntas, que é uma coisa que hoje em dia na nossa sociedade parece faltar cada vez mais e esse é o nosso grande propósito e aliás foi o propósito desde sempre da Odisseias.

EcN: Ao nível do marketing, qual é a vossa estratégia para atrair clientes?

FC: A primeira estratégia, que seguimos desde o início, é ser uma empresa focada no cliente e, portanto, esforçamo-nos ao máximo. Obviamente nem sempre as coisas correm bem, mas nó fazemos todo o esforço para conseguir resolver essas poucas situações, somos uma empresa muito centrada no cliente. Essa é a primeira estratégia porque queremos que o cliente que já comprou na Odisseias volte a comprar connosco e que não se sinta defraudado, e por isso mesmo temos investido, e continuaremos a investir muito mais, em melhorar o nosso serviço.

Hoje em dia quem tiver atento ao nosso site vai perceber que estamos a pôr booking nos nossos serviços e é possível reservar um hotel em booking ou um restaurante sem necessidade de um voucher e no futuro será possível reservar tudo sem necessidade de um voucher e este tipo de desenvolvimentos vão nesse sentido, de entregar cada vez mais ao cliente. Como segunda estratégia temos obviamente investido em marketing. Nos últimos anos o investimento na área digital, no online, tem sido grande, e por vezes pode não ser tão visível, mas investimos muito na qualidade do retalho, ou seja, em termos expositores maiores e melhores, por exemplo, hoje em dia os nossos expositores são maioritariamente retro iluminados.

EcN: Quais são os “deal estrela” na sua plataforma?

FC: Todos os nossos parceiros são importantes, desde os mais pequenos aos maiores e nós temos uma característica diferente, não temos todos os hotéis nem todos os spas porque não somos uma plataforma que queira ter tudo. O que nós realmente queremos é ter uma boa abrangência geográfica, obviamente uma boa quantidade de parceiros, mas mais do que isso queremos ter bons parceiros e, felizmente, existem muitos bons parceiros. Nós somos muito criteriosos na contratação e não somos como outras plataformas que são como Marketplaces que qualquer um consegue entrar. Na Odisseias não é assim, as pessoas sabem que quando compram connosco, nós escolhemos aquele hotel, nós escolhemos aquele restaurante, escolhemos aquele spa e isso aumenta muito a nossa responsabilidade enquanto marca. Portanto todos os nossos parceiros são escolhidos porque achamos que eles têm qualidade para estar connosco. Clic para tuitear

Claro que há uns que são mais importantes do que outros em termos de faturação e isso é normal, mas também é algo que varia muito ao longo do tempo e depende muito do esforço que o parceiro esteja disponível para fazer em conjunto connosco para criar coisas diferentes. Posso referir que nos últimos anos conseguimos estabelecer parcerias muito fortes com os parques temáticos, como o Badoca ou o Zoomarine, e conseguimos entreajudar-nos a entregar muito valor ao mercado e a conseguir vender. Lembro-me que com o Badoca criámos uma quantidade diferente de experiências, coisas que não existiam, hoje me dia no Badoca e no Odisseias não se compra só o bilhete, pode comprar-se outro tipo de experiências que tem a ver com estar mais próximos dos animaise e ver bastidores. Todo este tipo de coisas são coisas que nos agradam muito, e para isso é preciso conseguir estabelecer parcerias, criar em conjunto coisas novas para dar ao mercado.

EcN: Como é que a recorrência e a lealdade – uma peça fundamental – do utilizador em relação com os comerciantes com que trabalha? E a sua plataforma?

FC: Sem dúvida temos muita recorrência, essa é a nossa grande estratégia, porque ao sermos centrados no cliente, conseguirmos entregar valor e trabalhar estes dois pilares, o das pessoas poderem comprar para elas próprias ou poderem comprar para oferecer, conseguimos criar recorrências. Uma pessoa pode comprar as suas férias e/ou experiências para fazer no verão e no Natal pode vir comprar para dar alguém, aquilo que gostou tanto de fazer no verão, portanto temos sempre vindo a aumentar o ‘Life Time Value’ dos nossos clientes e a recorrência com que eles nos compram e isso faz parte, sem dúvida, da nossa estratégia.

EcN: Ao nível dos pagamentos, quais são os métodos mais comuns utilizados pelos portugueses?

FC: O mais utilizado é ainda o Multibanco, o MbWay tem vindo a crescer bastante nos últimos tempos, nós instalámos o ano passado em outubro e neste momento já é o segundo meio de pagamento que as pessoas escolhem, seguindo-se o cartão de crédito e o Paypal. Tentamos ao máximo ter todos os meios de pagamento disponíveis e neste momento temos todos, para os clientes poderem escolher, mas eu destacaria o Mbway como um meio de pagamento realmente muito interessante para se utilizar porque é muito fácil, é automático e o voucher fica imediatamente disponível sem os riscos do cartão de crédito.

EcN: Internacionalização: Operam em mais países? Planeiam abrir em novos mercados?

FC: Há dois anos fomos comprados pelo grupo Smartbox. Eu e o Rui somos os fundadores da Odisseias e continuámos a gerir a empresa, mas neste momento somos parte do grupo. É um grupo grande, que fatura 500 milhões de euros na Europa e que está nos principais países europeus, Espanha, Itália, França, … Neste momento só está na Europa, mas é maior grupo de experiências do mundo, não há outro.

A marca continua Odisseias, mas fazemos parte de um grupo maior que nos permite ter maior oferta internacional. As nossas caixas já começam a ter fornecedores doutro países e isso vai ser uma tendência. Também no site vai ser tendência encontrar mais experiências internacionais. Fazer parte deste grupo tem sido excelente porque conseguimos importar muitas coisas boas e muitas mais valias e, portanto, somos ainda mais fortes.

EcN: Campanha Black Friday. O que têm preparado?

FC: Em termos de Black Friday nós temos algo um pouco diferente, nós não trabalhamos a Black Friday, nós trabalhamos o Black November e no início de novembro começa a campanha e o que tentamos fazer em conjunto com os nossos fornecedores é entregar produtos com preços ainda melhores porque esse é o objetivo dessa época, seja para as pessoas poderem antecipar as suas compras de Natal ou poderem comprar coisas para si e este ano vamos ter a maior campanha de sempre, com o maior número de ofertas e com um preço ainda melhor.

Na Odisseias somos uma empresa de experiências, mas sabemos que, por exemplo, no canal online temos que ter preço Clic para tuitear O preço é importante para as pessoas e em consequência tentamos oferecer a maior qualidade-preço possível. A questão da Black Friday fez com que toda a indústria, e nós sentimos isso por parte dos nossos fornecedores, fizesse um esforço ainda maior para entregar valor e isso o que faz com que as vendas aumentem. Para mim é um ‘win win’ para todos. Nos não sentimos que vendemos muito na Black Friday e nada no Natal , pelo contrario, vendemos bastante em novembro e continuamos a vender muito bem em dezembro. Para nós tem sido realmente uma grande vantagem.

EcN: Para além desta época de novembro/dezembro têm outra época do ano que se destaque?

FC: O natal é a época mais importante mas o verão também é, o junho, julho e agosto são meses bastante fortes.

EcN: O Groupon sempre olhou para Portugal depois da sua saída há anos. Será que beneficiariam com o regresso deste tipo de category killers?

FC: Digamos que a Groupon é um concorrente não totalmente direto porque é uma empresa de descontos e nós não nos posicionamos como uma empresa de descontos, obviamente existe algum cruzamento porque temos muitos fornecedores que são os mesmos e quando a Groupon entrou em Portugal nós percebemos que o online tinha realmente mudado e não voltaria a ser o mesmo na questão dos descontos mas isso não é só na nossa industria. Se olharmos para a indústria do ecommerce o desconto em Portugal, principalmente agora, faz parte. Se a Groupon voltasse não veríamos isso como um problema, estamos muito habituados a ter concorrência em todas as áreas e muitas vezes a concorrência permite fazer crescer os mercados porque é mais um a investir no sector apesar de neste caso como já disse, não é bem um concorrente no mercado das experiências que é onde nós nos posicionamos e queremos estar. Eu diria que é um concorrente um pouco indireto.

EcN: Nos países vizinhos, a Groupon está a caminhar para um modelo de negócios de «experiências de luxo» (Hotéis 5*, Restaurantes Michelin Star, etc.) Têm isso no vosso road map?

FC: A Groupon está a tentar reinventar-se e bem e é verdade que estão a fazer algum shift no seu posicionamento e mesmo a nível de algumas funcionalidades estão a tentar fazê-lo e bem mas acredito que demorará muito tempo porque uma empresa como eles que nasce nos descontos fazer essa mudança é um grande desafio, em termos de mudar o mindset das pessoas. Mas é interessante porque se toda a indústria caminhar para onde nós estamos a caminhar isso irá ajudar-nos, portanto aí acho que até nos podemos ajudar uns aos outros e assim quem irá ganhar é o cliente ao conseguirmos entregar mais valor.

EcN: Incluir bens físicos nos vossos deal. Fizeram-no? Têm-no em mente?

FC: Não, nós no passado já o fizemos, mas isso desfoca-nos, tira-nos posicionamento. Eu disse que somos uma empresa de experiência e disse que é muito melhor oferecer uma experiência que um produto físico e acreditamos bastante nisto. É verdade que incluímos produtos físicos na nossa oferta, foi uma forma de diversificarmos o negócio, mas percebemos que foi um erro. Desfocou-nos porque não é possível fazer tudo, desfocou-nos porque, nessa altura, não investimos o suficiente nas experiências e desfocou-nos para um negócio complexo, que não é o nosso e por isso decidimos tirar e não vamos voltar a colocar.

Vamos continuar a investir nas experiências e conseguir entregá-las e ter booking em todas as áreas. Uma coisa que é muito importante para nós é que somos uma marca omnichannel e multipurpose, na perspetiva de comprar para si ou poder oferecer, em ambos os canais, retalho e online, e isso é importante para nós. Enquanto marca estar em ambos os canais dá-nos maior visibilidade e os canais são complementares um do outro. Isto é o que acreditamos, não somos uma empresa que ache que o futuro está só no online, que o retalho deixará de existir e para provar isto basta ver os movimentos dos grandes players do ecommerce no mundo. O que é que eles estão a fazer? Estão a entrar no retalho.

EcN: É possível conhecer a % da comissão de vendas da sua empresa?

FC: Não é possível, mas posso dizer que depende de cada produto. As nossas comissões são muito dentro do mercado e que outros players fazem. Há uma coisa que tem que acontecer, o nosso parceiro tem que receber valor, nós fazemos um esforço muito grande para fazer uma negociação equilibrada, enquanto intermediário, entre o cliente e o parceiro – nós chamamos-lhe parceiro e não fornecedor-, que permita que tenham valor suficiente para ser interessante para eles e que nós também tenhamos um valor interessante e que ao fim do dia consigamos oferecer um valor interessante ao cliente e isso é possível fazê-lo.

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