Sidney Carvalho é um empreendedor que passou por vários desafios sem nunca baixar os braços. Estava a formar-se em arquitectura quando a crise de 2008 o atingiu e não pôde continuar a estudar. Trabalhou como cozinheiro mas mesmo assim não era o suficiente para estudar e trabalhar. Em 2010 criou uma empresa de limpeza, a Home Hotel. O conceito era transformar a casa das pessoas num hotel e aí começou o seu percurso empresarial. A ideia foi sempre a de voltar à faculdade mas como o negócio ia de vento em popa, chegando a ter 17 empregados, manteve-se, até hoje, à frente da empresa. Passada uma década vê-se atingido por outra crise, desta vez sanitária, mas que veio afectar o seu negócio, com a faturação a descer 80%. Adaptaram a sua estratégia para conseguir pagar as despesas da empresa. E foi daí que surgiu a N’hortas. Uma das poucas atividades que o governo permitia e que as empresas podiam exercer era no ramo alimentar e aqui começou a nova aventura de Sidney com quem tivemos a oportunidade de conversar. 

Ecommerce News Portugal: Conta-nos como surgiu a N’hortas. Foi ideia sua ou alguém se aproximou com a ideia?


Sidney Carvalho: Fui eu que tive a ideia. Quando foi declarado o estado de emergência, ficámos um pouco apavorados, sem saber o que fazer com os funcionários, tendo já os clientes todos em quarentena. Estive uma semana a pensar sobre como poderia solucionar esse problema, até que, um dia, eu pedi o gás para casa, e perguntei ao senhor da distribuição de gás se o número de entregas de bilhas de gás tinha aumentado, e ele disse que o número tinha passado de 80 por dia para 120. Se o número de encomendas aumentou, é porque as pessoas estão mais tempo em casa e estão a consumir mais. Se estão a consumir mais, estão a cozinhar mais. Se estão a cozinhar mais, estão a precisar de mais produtos. Como é que eu poderia entrar no mercado? Na parte da distribuição, já que as pessoas estão em casa e a consumir, poderia vender muita coisa, mas a alimentação era a única permitida pelo governo. Poderia distribuir pão, bens essenciais e lembrei-me dos legumes, que era algo simples. Foi daí que criei a N’hortas, para solucionar o problema que estávamos a ter na altura. E tem corrido bem.

Ecommerce News Portugal: A N’hortas é uma empresa de distribuição. Como funciona o vosso mecanismo?

Sidney Carvalho: Trabalhamos diretamente com os produtores. Entrei em contacto com vários produtores nacionais e percebi onde é que estavam a fazer a distribuição. Expliquei o que eu queria e consegui produtores de laranjas, maçãs e vários legumes e verduras. Faço a recolha desses produtos e armazeno num espaço alugado onde fazemos a triagem e os cabazes para, na manhã seguinte, fazermos a distribuição para todos os clientes. Eu nunca tinha trabalhado com um produto, antes prestávamos um serviço. O grande desafio foi perceber como funciona o mercado do produto, quando é que as pessoas o pedem? Voltam a pedir o mesmo produto? Então fizemos algumas campanhas nas redes sociais para sentir como é que as pessoas aderiam a este tipo de produto especificamente. Correu muito bem somente nas redes sociais e então, passadas duas ou três semanas, decidimos dar o passo seguinte e fazer um flyer. Percebemos que haviam dois públicos, os que estão presentes nas redes sociais e muitas outras pessoas que ainda não estão na internet, normalmente pessoas de maior idade. 

Ecommerce News Portugal: Quais são os vossos principais clientes? Nota algum padrão? É por zonas?

Sidney Carvalho: Nós estamos localizados em Sintra, e, embora tenhamos pedidos desde Vila Franca de Xira até à margem sul, não os aceitamos, porque fica muito distante fazer a entrega nessas áreas. Mas fazemos a grande Lisboa, desde o Parque das Nações, Cascais, Sintra, Oeiras, Carcavelos.

Ecommerce News Portugal: Como foi converterem-se noutro tipo de negócio, um pouco mais digital? 

Sidney Carvalho: O ecommerce é uma área que desconhecemos por completo, e abro aqui um pequeno parêntesis: há uma pequena vantagem em termos começado este serviço, visto que 80% dos nossos clientes da Home Hotel são clientes particulares, e nós começámos logo com eles porque já nos conheciam e tinham confiança no nosso serviço, portanto tínhamos uma rampa montada, só não tínhamos o foguetão. Não sabíamos como é que o mercado iria reagir e por isso temos clientes que já estão connosco há anos e temos clientes novos, que vão entrando.

A dificuldade está em saber se as pessoas vão, realmente, comprar bens alimentares pela internet. Porque, neste momento, compram roupa, objetos, brinquedos. E uma coisa é comprar um objeto, outra é comprar um bem alimentar. Clic para tuitear Esta mesma questão faz-nos pensar,  nós começámos este projeto no meio de uma pandemia, entretanto, o estado de emergência foi declarado e se os vários pedidos foram pelo facto das pessoas estarem em quarentena ou se, quando levantassem o estado de emergência, manteríamos o mesmo número de pedidos. Curiosamente, continuamos a ter o mesmo número de pedidos, mas é muito prematuro para termos uma grande avaliação sobre todos esses acontecimentos.

Ecommerce News Portugal: Os pedidos chegam tanto através do online como do offline?

Sidney Carvalho: Curiosamente existem duas diferenças. No online, as pessoas pedem, mas não retêm a informação. Através do flyer, as pessoas ligam-nos, fazem o seu pedido, mas ficam com o folheto em casa, então voltam a pedir. Também utilizamos muito o Whatsapp para manter o contacto e, como não temos tempo para ligar aos clientes, todas as semanas, a perguntar se querem serviço ou não, vamos fazendo algumas promoções e vamos enviando pelo Whatsapp, isto para além do que fazemos nas redes sociais.

No entanto, tanto no online como fora, o grande desafio não é vender os primeiros cabazes mas sim fazer com que os clientes voltassem a pedir. Vender a primeira vez é fácil, mas a segunda já não é tão fácil. Criámos uma base de dados para nos mantermos em permanente contacto com os clientes. 

Ecommerce News Portugal: Qual é a vossa presença nas redes sociais?

Sidney Carvalho: Só temos duas, Instagram e Facebook. E, por causa disso, estamos a sentir a necessidade de criar um site, de forma a que os clientes possam comprar através de lá, o que até se tornará mais fácil para nós. Diferentes clientes repetem as perguntas, sempre que ligam ou enviam mensagem. Se tivermos um site, o próprio pode fazer a filtragem das questões e assim chega-nos um pedido limpo sem precisarmos de esclarecer constantemente o cliente. Ainda não iniciámos o site mas estamos a analisar duas empresas para nos fazerem esse serviço.

Ecommerce News Portugal: Disse que não sabia como é que o mercado ia reagir, e a verdade é que estamos cheios de supermercados que vendem legumes. Como é que se diferenciam? 

Sidney Carvalho: Simplesmente penso que é um nicho diferente e, se calhar, um pouco mais abrangente do que nós pensamos. Sempre que temos um cliente novo, enviamos um questionário. Nesse questionário, perguntamos se gostaram do serviço, da sua celeridade, do sabor e frescura dos legumes e o que é que os fez entrar em contacto. Assim vamos fazendo uma triagem desses questionários e fomos percebendo determinados hábitos e o que é que realmente os clientes preferem. A preferência é a nossa frutaria porque os produtos são mais frescos, muitas vezes os produtos das grandes superfícies são guardados em arcas, o que faz com que não sejam tão frescos e saborosos como os produtos que vêm diretamente do produtor. Assim, percebemos que a frescura faz com que os clientes prefiram o produto da frutaria e, neste caso, da N’hortas porque nós cortámos os transportes todos. 

Ecommerce News Portugal: Quais são as medidas de limpeza e higiene que tiveram que tomar? Qual foi a maior dificuldade que tiveram nesse sentido?

Sidney Carvalho: A maior dificuldade que sentimos foi em relação aos clientes. Uma das questões é a de como é que nós nos apresentamos no momento da entrega. Tomamos sempre as medidas de segurança, sempre com luvas, máscaras, álcool-gel para desinfetar as mãos, para que o cliente possa sentir segurança em relação aos produtos. Mas, mesmo assim, a maior parte dos clientes faz a sua própria higienização para que garantam que os produtos estão devidamente higienizados antes do seu consumo. Também o manuseio dos produtos enquanto fazemos os cabazes é de máscaras e luvas até porque trabalhamos em grupo, temos que ter em atenção a segurança dos funcionários e também a entrega dos produtos. 

Ecommerce News Portugal: Métodos de pagamento. Quais têm? E qual o mais utilizado?

Sidney Carvalho: Quando o cliente entra em contato connosco, fazemos o registo do pedido e enviamos um sms com o agendamento da entrega; nesse sms, estão os três modelos de pagamento, transferência bancária, MB way e pagamento em dinheiro. Há clientes que ainda preferem não trabalhar por transferência e pagar em dinheiro. Começámos por não a cobrar deslocação e em princípio não iremos cobrar, as entregas têm sido gratuitas. Começámos numa altura muito sensível da nossa história e que tínhamos de ser mais acessíveis às pessoas, então não iríamos criar entraves em relação a preços. 

O método mais utilizado é o MB Way, penso que cerca de 80%. Por norma, pedimos, sempre que possível, que possam fazer o pagamento antes, e não no ato da entrega. Abrimos sempre a exceção porque o cliente às vezes fica um bocado desconfiado, e abrimo-la para que o cliente possa estar mais assegurado. Mas, curiosamente, e é algo que me surpreendeu imenso, os clientes pagam antes de receberem, e percebi que na verdade, é como funciona o e-commerce. A nível pessoal, não sou muito de pedir e fazer encomendas do estrangeiro, mas fui-me apercebendo de que as pessoas estão a habituar-se ao e-commerce e a fazer pedidos nacionais e internacionais e fazer o pagamento antes de receber o produto. Eu digo isto porque o nosso serviço, na Home Hotel, funciona ao contrário. Nós trabalhamos o mês inteiro e só no final do mês é que o cliente faz o pagamento.

Ecommerce News Portugal: Vão-se manter no mercado como N’hortas, ou Home Hotel e N’hortas?

Sidney Carvalho: Não, curiosamente, a grande vantagem da Home Hotel, de que me fui apercebendo com o passar dos anos, em relação a qualquer serviço, é que a Home Hotel é dos poucos serviços em que está constantemente alguém presente na casa do cliente. Há vários serviços, o canalizador, o eletricista, que vão poucas vezes à casa do cliente. A nossa grande vantagem é o facto de nós estarmos todas as semanas na casa do mesmo cliente. Assim, conseguimos lidar e quase que influenciar o cliente para um determinado serviço. Então, acreditamos que ao mesmo tempo que a Home Hotel foi evoluindo, a N’hortas também vai evoluir. Só não vai ser a mesma empresa, vai haver uma necessidade de separar, porque nem todos os clientes da N’hortas são os clientes da Home Hotel. Mas, curiosamente, pode existir uma simbiose, porque os dois serviços podem trabalhar um com o outro, principalmente a nível de publicidade.

Ecommerce News Portugal: Qual é a maior dificuldade e benefício desta transformação?

Sidney Carvalho: Ainda não conseguimos retirar dados muito concretos em relação a essa situação porque é tudo muito recente ainda e estamos a viver uma era muito ímpar da nossa história, em que todas as semanas são inconstantes e mesma a nível empresarial, fazer projeções, mesmo até ao final do ano, é difícil. A nível de vantagens, acreditamos que é muito mais fácil, que é muito mais rápido chegarmos às pessoas ainda em quarentena e há muitas pessoas que procuram produtos online. Acreditamos também que a distribuição, não só dos bens alimentares, mas a distribuição em si, é o futuro. E acreditamos que é uma tendência do mercado as pessoas pedirem aquilo que querem através da internet. Tivemos o fenómeno da Uber Eats há pouco tempo, havia pessoas do velho do Restelo que diziam que a população iria aderir, mas, pelos vistos, vimos vários pirilampos, porque andavam sempre com uma caixa amarela ou verde fluorescente nas costas, portanto os nossos atos estão a mudar. E se estão a mudar nesse sentido, então acreditamos que estamos na crista da onda.

Ecommerce News Portugal: Quais os vossos planos a curto-médio-longo prazo para o N’hortas?

Sidney Carvalho: Para o N’hortas, a longo prazo, funcionando bem, podemos abrir pólos em outros pontos do país. O nosso maior interesse é fidelizar os clientes, semanais e quinzenais, e também dependendo do agregado familiar, pretendemos abrir outros pólos. Este é o plano porque fazer entregas agora é muito fácil, não existe muito trânsito, mesmo de Sintra até Lisboa é muito rápido. Mas, numa situação normal, não será tão fácil fazer a distribuição da parte da manhã. Quando se normalizar a situação da pandemia, com o acréscimo do trânsito será um caos, portanto estamos a sentir necessidade de talvez abrir um outro pólo em Lisboa e na margem sul. A médio prazo, vamos continuar a insistir na subscrição dos clientes e conseguir conjugar os clientes da Home Hotel e da N’hortas. A curto prazo, vamos buscar os alimentos ao produtor mediante as encomendas, mas, mesmo assim, somos obrigados a trazer algum excedente e há sempre algum. Com esse excedente, temos duas soluções: uma é transformar o fresco em tartes ou em quiches e estamos a sondar abrir uma cadeia de transformação; o outro ponto é fazer trabalhos sociais, ou seja, em vez de o excedente se estragar, estamos a procurar organizarmo-nos para fazer trabalhos sociais.

Apesar de ser obrigado a pensar que tudo o possa ser transformado, pode ser rentabilizado, a situação que estamos a viver é muito particular e vamos procurar desenvolver o trabalho social, com a N’hortas, já que estamos a trabalhar com o bem essencial que são as frutas e legumes e que nem todas as pessoas, neste momento, têm condições de obter. 

Em relação à Home Hotel, como trabalhamos com empresas, hotéis, ginásios, escritórios e temos tido o feedback que, após a situação de lay-off, há muitos empregados que vão para o desemprego, porque as empresas não terão como pagar, estamos a preparar-nos em relação a isso. O que estamos a viver ainda é muito instável e, tentar potencializar ao máximo o produto, dos frutos e legumes, e, ao mesmo tempo, olhar para essa responsabilidade social porque de certeza que as coisas lá para a frente não serão assim tão coloridas.

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