KuantoKusta é o comparador de preços mais conhecido de Portugal e nasceu das mãos de Paulo Pimenta. O francês filho de pais portugueses teve um percurso variado tendo trabalhado ainda em França no departamento de vendas de informática no Auchan, onde começou a desenvolver a paixão pela informática. O seu lado empreendedor levou-o a abrir um bar que serviu de cobaia de aprendizagem para o seu lado empreendedor. Ao final de dois anos e meio decidiu vir para Portugal com a ideia de abrir uma loja de informática e acabou por formar um dos sites mais visitados em Portugal, o KuantoKusta. Na Ecommerce News Portugal conversámos com o fundador do KuantoKusta, Paulo Pimenta, que nos conta tudo sobre o seu êxito e a sua opinião sobre o ecommerce em Portugal.

Ecommerce News: Como foi o início do Kuanto Kusta? Qual é a semente da ideia de montar este comparador de preços?

Paulo Pimenta: O KuantoKusta nasceu do acaso. Quando chegámos a Portugal em janeiro de 2004, eu e os meus irmãos, tínhamos a ideia de abrir uma loja de informática. Primeiro perguntámos aos nossos familiares e amigos qual o comparador de preços que usam em Portugal, para saber qual a concorrência que a nossa loja iria encontrar e foi aqui que indiretamente nasceu o KuantoKusta. Em França usávamos comparadores de preços desde 1999, mas aqui não existia nenhum. Se já houvesse outro comparador de preços talvez tivesse sido diferente, mas como não existia vimos uma oportunidade, não chegámos a lançar a loja de informática, mas lançámos o KuantoKusta.

Em fevereiro de 200 já tínhamos a marca KuantoKusta, inspirámo-nos muito no comparador de preços francês KelKoo porque tinhamos poucos conhecimentos de marketing e design. O ano que se seguiu foi de preparação do projeto, aprendizagem do funcionamento técnico e legal de um comparador de preços, pedir orçamentos e contratar empresas que desenvolvessem o site. Aqui encontrámos a Miscode e fizemos um investimento inicial de 10.000 euros o que para nós foi muito dinheiro na altura mas que nos permitiu que em maio de 2005 abríssemos o site ao público. Ainda me lembro que no primeiro dia tivemos 205 visitas.

Ecommerce News: Kuanto Kusta é um dos sites mais visitados em Portugal. Qual é a sua chave para o sucesso?

Paulo Pimenta: Para mim existem dois fatores importantes. Independentemente de sermos os únicos nesta área, é um serviço que as pessoas precisam, é útil, mesmo que depois não comprem nas lojas do KuantoKusta ou que façam a sua compra em lojas físicas, poder comparar os preços em diferentes lojas de forma simples é um serviço necessário e beneficiamos disso. Para além disto trabalhamos muito bem, temos uma equipa que tenta sempre corresponder com conteúdo de qualidade, com as melhores lojas possíveis, com um site user friendly em que é fácil de usar e de encontrar o produto.

Ecommerce News: Como está o Kuanto Kusta em números: utilizadores, produtos, marcas, volume de negócios, empregados?

Paulo Pimenta: Temos números muito interessantes, não nos podemos queixar que ao fim de 14 anos abertos ao público continuemos a crescer 25% ao ano. O mês passado tivemos cerca de cinco milhões e meio de visitas. Sim crescemos, mas a batalha mais importante é a próxima, já estou a pensar no que podemos melhorar.

O mês de dezembro ainda está a decorrer, portanto ainda não são números oficiais, mas devemos chegar aos 40 milhões de visitas este ano, em comparação com o ano passado em que tivemos 34 milhões crescemos e a nossa ideia era esta. Temos neste momento um pouco mais de 700 lojas ativas no KuantoKusta, estes são números importantes, mas nós não corremos atrás de lojas, o objetivo não é ter o mais possível, mas as melhores possíveis, aquelas que têm insígnias que as pessoas procuram ou que têm produtos que nós não temos. Em relação aos produtos, neste momento, temos mais de 2 milhões de produtos diferentes no KuantoKusta, os nossos clientes sabem que vão encontrar tudo o que precisam para o dia a dia no comparador de preços e no Marketplace em que estamos atualmente a investir. O lançamento do Marketplace o obrigou-nos a quase duplicar a nossa equipa, neste momento temos 44 colaboradores.

O objetivo para o ano é continuar a crescer nos dois dígitos, esperamos ter entre 48 e 50 milhões de visitas. É um valor ambicioso, mas possível. Clic para tuitear

Ecommerce News: Como funciona o marketplace Kuanto Kusta?

Paulo Pimenta: É muito simples, vens ao KuantoKusta, vês o produto e a parti daqui tens duas opções, ou vais à loja ou compras no KuantoKusta. Se decidires comprar connosco primeiro foi uma boa escolha (risos) e depois fazes a compra, escolhes o local de entrega e de faturação e escolhes o modo de entrega. A loja é a responsável pela entrega, no entanto quando a loja pôs o produto à venda no KuantoKusta colocou um preço e um prazo de entrega e nós estamos atentos a estes dois pontos. O preço terá que praticar, não há volta a dar. Em relação ao prazo de entrega, nós temos alertas e chamamos a atenção da loja quando está atrasada podendo a mesma ser penalizada. Em relação aos pagamentos é essencial explicar que o cliente está seguro, o dinheiro está cativo numa instituição de pagamentos e nós só podemos libertar o dinheiro para a loja e retirar a nossa comissão quando a entrega for feita ou devolver ao cliente.

Para nós a qualidade do nosso serviço é muito importante e por isso estamos sempre a evoluir e a adaptar-nos, mo primeiro semestre de 2020 vamos ter uma novidade, os nossos clientes poderão comprar no Marketplace KuantoKusta com a segurança KuantoKusta, mas terão a possibilidade de levantar numa loja.

Ecommerce News : Qual tem sido o comportamento do comprador português durante esta Sexta-Feira Negra? E o comportamento das marcas e lojas em relação à % de desconto ou política de preços?

Paulo Pimenta: A tendência nos últimos anos tem sido a pesquisa de produtos caros como máquinas de lavar e televisões, produtos em que uma diferença de 10% ou 15% fazia a diferença. Atualmente a tendência mudou bastante, a maior parte das vendas e das pesquisas são os produtos de consumo mais regular como perfumes, creme, roupa, artigos para animais.

O tráfego na Black Friday comparativamente com uma sexta feira normal é 5 vezes superior porque as pessoas estão à procura das boas oportunidades, por exemplo o nosso site eram 6 da manhã e haviam 1500 pessoas em tempo real no kuantoKusta, normalmente a essa horas estão 70 pessoas. Nesta Black Friday os produtos mais vendidos não foram na área tecnológica como era antigamente, mas sim na categoria de saúde e beleza. O nosso medo para Portugal é que se continuarmos a fazer como agora e não se considerar a Black Friday um dia especifico, as pessoas deixarão de acreditar que naqueles dias existirão promoções interessantes e aí podemos estar a estragar algo que funciona bem.

Em relação às políticas de preço nós detetámos mais promoções justas. Para mim, o comportamento das marcas foi mais honesto, promoções melhores, com menos falsas promessas, até porque a lei mudou e obriga a que o preço que praticado seja o melhor dos últimos 90 dias. Antigamente subiam o preço na véspera e baixavam na Black Friday, agora esta lei proíbe isto.

Os descontos parecem menos interessantes em termos de percentagem, mas na realidade os preços pagos pelas pessoas são mais baixos. Já não existem descontos de 70 e 80% que na realidade não eram descontos nenhum, eram metade do dobro.

Ecommerce News (EcN): Quais são os impulsos de compra do internauta em Portugal? O que procura? Como o procura?

Paulo Pimenta: Mobile, mobile e mobile. Quando o mobile chegou a Portugal o nosso medo enquanto KuantoKusta foi obter diferentes taxas de conversão, em mobile são muito inferiores ao desktop. Estávamos habituados a ganhar de uma maneira e como seria se os nossos clientes começassem a migrar para o mobile. O que aconteceu? Tivémos que nos adaptar e aproveitar a vantagem que existe aqui. Atualmente a diferença não é tão grande e a frequência de utilização é muito superior. Enquanto antigamente as pessoas usavam o desktop do trabalho para pesquisar no KuantoKusta agora o melhor horário do KuantoKusta é a noite, entre as 22h e 23h, e aos fins de semana os domingos são o melhor dia. Neste momento cerca de 60% do nosso tráfego é mobile, 35% desktop e 5% tablet.

Outro medo era que as pessoas não fossem converter tanto no Marketplace através do mobile, porque não é tão pratico. A taxa de transformação é inferior ao desktop sem qualquer dúvida, mas metade das nossas compras são feitas no mobile. E isto vai ser uma tendência cada vez maior.

O que leva o cliente a comprar depende da categoria de produtos e da altura do ano, por exemplo nas áreas tecnológicas é a marca e o preço. Mas quando falamos de produtos dentro da gama de saúde e beleza é a marca em si, se o produto é bom e a pessoa já conhece, as pesquisas nesta área são de um produto em específico e onde o posso encontrar. Existem certas alturas como o dia dos namorados, ou o Natal que sentimos que são compras mais por impulso.

Ecommerce News (EcN): Os comparadores de preços são sempre os primeiros projetos de sucesso online, mas quando o sector amadurece e todos lançam as suas lojas online, são também os primeiros a cair no esquecimento. Qual é o seu road map para combater isto?

Paulo Pimenta: Na maioria dos países os comparadores de preços têm um crescimento muito forte e de maneira muito rápida porque é um serviço útil. Ninguém deveria comprar um produto sem ter a certeza que está a fazer uma boa compra e isto para mim é a base. Sim, é verdade que em muitos países os comparadores de preços começam a cair no esquecimento. Por duas razões, a primeira está relacionada com a evolução do serviço, temos que acompanhar as necessidades do mercado, no KuantoKusta estamos atentos ao que acontece no estrangeiro e muitos não investiram na adaptação ao mobile, numa app, no design, não evoluíram e isto foi um dos problemas do sector. Outra razão foi a entrada do Google. Em muitos países a Google matou os comparadores de preços de forma propositada, isto foi comprovado e penalizado. Nós, KuantoKusta, não sofremos com isso porque tentámos sempre inovar. Em 14 anos fizemos 9 versões do site, modificámos, evoluímos, e investimos em branding. O meu lucro podia ser gigante no final do ano se não tivesse a investir tanto em publicidade, mas o meu crescimento também não seria de 25%, talvez 2% ou 3%. Eu prefiro investir muito, continuar a ser forte e manter-me no mercado que ter muito lucro e rapidamente desaparecer.

Em Portugal temos uma realidade diferente. O Kuantokusta nunca cresceu tanto como na altura da crise e isso ajudou a que a nossa mensagem fosse muito mais relevante. Não sofremos tanto como países nórdicos por causa das crises. Agora que a economia está melhor beneficiámos do efeito que tivemos antes. As pessoas procuram-nos por comodidade.

Ecommerce News (EcN): Para além da criação directa de tráfego, que outros modelos empresariais explora o Kuanto Kusta e que percentagem das suas receitas representa cada um deles? O que é o KuantoKusta Supermercados e como funciona?

Paulo Pimenta: O comparador de preços é cerca de 85% da nossa faturação e gradualmente vai mudar, esperamos que o Marketplace chegue aos 50%, mas atualmente é 10% da nossa faturação e 5% vem da venda de serviço de dados.

O KuantoKusta supermercados é um dos modelos de negócio que estamos a investir. Na europa ainda não existe muito deste modelo porque é difícil fazer dinheiro a partir daqui, eu sei que não ser ricos através deste modelo. O KuantoKusta Supermercados pretende ser um chamariz à marca KuantaKusta e nesse sentido tem a vantagem da recorrência, as pessoas necessitam regularmente de fazer compras de supermercado.

No KuantoKusta Supermercados a experiência é diferente. Não se compara um só produto, mas sim um cabaz de produtos que pode ser a tua lista de compras semanal, mensal, ou o conjunto que quiseres comparar, e a plataforma diz-te, naquele momento, qual é o supermercado que tem o cabaz de produtos mais barato. É um projeto que achamos que vai ser muito utilizado e que as pessoas vão querer ter.

Ecommerce News (EcN): Do seu ponto de vista, o que diria sobre a saúde do comércio eletrónico em Portugal? Quais são os pontos fortes e quais são os pontos fracos?

Paulo Pimenta: O ponto fraco e ponto forte são quase o mesmo. O ponto forte é a dimensão do país, somos um país onde é fácil lançar um ecommerce, é fácil arriscar, e é fácil ser um mercado de nicho. Não precisas de milhões de euros para atingires as pessoas que queres para o teu mercado. A publicidade no online ainda é barata comparada a outros países, o que faz com que lançar uma loja em si não seja muito complicado.

O senão do ecommerce é, à semelhança da vantagem, o tamanho do nosso país. Como 70% da população vive a 30 minutos de lisboa ou do Porto existe proximidade e facilidade de aceder às lojas físicas e nó, portugueses, estamos habituados a comparar os preços online, mas dirigirmo-nos ao shopping para comprar e falar com os funcionários.

E acrescento outro ponto fraco, o clima. Somos um país que beneficia de muito sol e aumenta a nossa tendência a sair e acabamos por ir diretamente à loja ou ao shopping.

Nós aqui no KuantoKusta adoramos a chuva porque sentimos que as pessoas compram 15 a 20% a mais no online. Clic para tuitear

Ecommerce News (EcN): O que vai acontecer no nosso ecommerce nos próximos anos?

Paulo Pimenta: Nós somos dos únicos países, além a Grécia, que a faturação das lojas de ecommerce está muito fracionada. Temos alguns grandes Players mas ainda existem centenas de lojas que vendem muito através do seu site e acho que isso vai parar de existir nos próximos anos. O que acontecerá é que vão existir 20 a 30 players mais fortes, concentrados que têm os seus próprios marketplaces. Ainda é barato comprar tráfego em Portugal, mas isto está a reduzir, está cada mais complicado e profissionalizante. Ainda é possível, mas já não é como era e, portanto, serão revendedores a vender os seus produtos e o nome da marca será esquecida, o que se saberá no futuro é o nome da plataforma em que foi vendida. Em Portugal ainda vai demorar uns anos, mas já está a acontecer noutros países. Não vale a pena o esforço de ter um site atualizado, com ficas técnicas para venda, quando depois não conseguem atingir as pessoas.

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